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Álcool, desigualdades e a fome de lucro da indústria

Atualizado: 9 de abr.

Por Natana Magalhães, mulher negra, historiadora, graduanda em Psicologia


Tem sido muito importante ser parte atuante nos esforços de uma comunidade que quebra com os silenciamentos e os transforma em reflexões e ações cotidianas de cuidados voltados a mulheres alcoolistas. Desenvolver possibilidades comunitárias para fissurar um sistema que tem nos adoecido é movimentar-se com a intenção de desatar os nós que nos aprisionam, o que para além de ser uma tecnologia do cuidado, é produzir saúde coletiva.


A saúde é um dever do Estado e direito fundamental de todas as pessoas no nosso país. De acordo com a OMS, ter saúde está para além de não possuir doenças. É uma condição ampla e que se relaciona com a qualidade de vida, bem-estar mental, físico e social e quem participa da rede da AF adquire esse conhecimento. Identificamos uma série de fatores que contribuem para o adoecimento, que inclui o Transtorno por Uso de Álcool e outras Substâncias, tais como a pobreza, a violência sexual, a exploração do trabalho, LGBTQIAPN+fobia, o machismo, o racismo. 


Temos desenvolvido práticas e epistemologias que promovem saúde e acolhem diversidades. Afinal, entender as diferenças mesmo diante de uma doença comum a todas nós, é importante para confrontar formas de opressão distintas que interagem e implicam na existência.


Recentemente, o Coletivo Papo Reto, organização que tem se dedicado à comunicação, direitos humanos e cidadania para a garantia de direitos das favelas, publicou em suas redes sociais que a expectativa de vida de um morador da Gávea é de em média 80 anos, enquanto para um morador do Complexo do Alemão, a idade reduz para 65 anos. Ambas as regiões estão localizadas na mesma cidade, Rio de Janeiro.


Essa informação indica que viver menos e com menor qualidade é uma realidade para muitas pessoas e que a produção das desigualdades reflete na forma como doenças incidem na vida e determinam acessos, incluindo à saúde, elemento indispensável para prevenir, tratar e prolongar a vida por mais tempo. Nesse sentido, defender o Sistema Único de Saúde (SUS) e sua constante melhoria é essencial para que este atenda de forma universal e equitativa a todas as pessoas.


O fato é que estamos vivendo e lutando ao mesmo tempo e não é possível esperar que haja condição propícia para nos cuidarmos. Então, paralelamente às pressões por políticas públicas, somos compelidas a agir enquanto sociedade civil. O cenário favorável é termos boas condições de moradia, boa comida à mesa, ambientes sem violências, a integridade física assegurada, dispormos de bons serviços previamente pagos por nossos impostos e assim por diante. Esses são direitos ainda distantes da efetividade para a maioria de nós e tem sido historicamente reivindicados por pessoas que não se calam diante de injustiças.


A escritora Carolina Maria de Jesus foi uma dessas vozes insurgentes com quem aprendi que “a fome é uma invenção daqueles que comem”. Ela nos alertava sobre uma política sistemática de produção da pobreza no best-seller Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada (1960). O livro também nos aponta caminhos possíveis para pensarmos sobre o desastre dos efeitos do álcool dentro de um contexto de profundas desigualdades, não por acaso, em 2022 foi eleito por 169 intelectuais brasileiros como “o livro para compreender o Brasil”. Vejamos:


“20 de julho de 1955

Deixei o leito as 4 horas para escrever. Abri a porta e contemplei o céu estrelado. Quando o astro-rei começou despontar eu fui buscar água. Tive sorte! As mulheres não estavam na torneira. Enchi minha lata e zarpei. (...) Fui no Arnaldo buscar o leite e o pão. Quando retornava encontrei o senhor Ismael com uma faca de 30 centimetros mais ou menos. Disse-me que estava a espera do Binidito e do Miguel para matá-los, que êles lhe expancaram quando êle estava embriagado.” Lhe aconselhei a não brigar, que o crime não trás vantagens a ninguem, apenas deturpa a vida. Senti o cheiro do alcool, disisti. Sei que os ébrios não atende. O senhor Ismael quando não está alcoolizado demonstra sua sapiencia. Já foi telegrafista. E do Circulo Exoterico. Tem conhecimentos bíblicos, gosta de dar conselhos. Mas não tem valor. Deixou o alcool lhe dominar, embora seus conselho seja util para os que gostam de levar vida decente.”


Nesse episódio encontramos muitos elementos sobre o que pode constituir a precarização da vida. Aqui, vamos nos ater à dimensão de violências acentuadas pelo álcool, onde homens são seus principais agentes e aos desdobramentos sistemáticos dessa condição. O texto tem 69 anos, mas arrisco dizer que os leitores atuais conseguirão identificar ocasiões que já presenciaram ou tiveram notícia, pois o senhor Ismael não é um caso isolado, mas parte dos mais afetados pelos mecanismos de produção do alcoolismo e também da fome, do racismo e dos elementos que apontamos ao longo do texto que são inerentes ao modo de acumulação de riquezas no capitalismo.


Nesse sentido, parece uma obviedade, mas não é uma informação tão recorrente o fato de a indústria do álcool ser uma das principais responsáveis pelo alcoolismo.  Os que produzem o álcool também precisam ser responsabilizados e introduzidos no debate sobre os efeitos do consumo na população. Afinal, a “fome de lucro” de poucos tem gerado problemas irreparáveis, desde doenças, violências e a morte, que por ano tem vitimado 85 mil pessoas nas Américas de acordo com a OPAS/OMS.


Além disso, a droga que mais mata no mundo tem ampliado seu público. Na última década, o percentual de mulheres que morreram por uso de bebida alcoólica subiu 7,5%. Mesmo com dados alarmantes, o Estado protege a indústria. Isso tem sido comprovado com dados que foram divulgados recentemente pela Controladoria Geral da União (CGU) e Receita Federal, em que a Ambev ocupa o terceiro lugar na lista de indústrias com isenções de impostos, um total de R$353 milhões.


Considerarmos a nossa saúde para além da ausência de doenças como dissemos anteriormente é reconhecer que a mesma está intrinsecamente relacionada ao ambiente em que as pessoas vivem e a fatores culturais, econômicos e políticos. Tais estruturas não apenas influenciam os padrões de consumo, mas contribuem para a não solução de problemas muito antigos de ordem pública, que envolvem figuras como os vizinhos de Carolina Maria de Jesus ainda na década de 50 na favela do Canindé, até você que chegou a este texto porque teve algum interesse relacionado a essa questão.

Então, caso você esteja com problemas relacionados a forma de beber, peça apoio!

 

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