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Depoimento de uma girassol bariátrica

Atualizado: 26 de abr.





Olá, me chamo Janaina, sou natalense, tenho 49 anos e fiz minha cirurgia bariátrica em 2009. Se me perguntarem hoje se me arrependo, uma parte de mim vai dizer que SIM e outra que NÃO, mas por que?


Desde a primeira gestação, não consegui mais emagrecer, na segunda gestação tive diabetes gestacional e, ao fim dela, cheguei a 104 kg. Imaginem eu com apenas 1,62 . Pois bem, tive que recomeçar minha vida do zero, após a separação, tive que cuidar de uma bebê e de uma mãe idosa com câncer e, com tudo isso, me sentia sobrecarregada, literalmente pesada, sem energia, sem ânimo e não conseguia conter minha compulsão alimentar, por causa da ansiedade, que me acompanha, desde a infância. Então essa é a parte boa da decisão de ter feito a cirurgia: necessidade por causa dos problemas de saúde. Foi quando procurei meu cardiologista, que me recomendou procurar equipe multidisciplinar (gastrologista, nutricionista e psicólogo), para começar a preparação para a cirurgia.


Até então, parecia ter feito a melhor escolha, consegui perder 43 kg, me sentia mais disposta, minha autoestima foi resgatada, me sentia mais atraente, comecei a fazer faculdade, novas amizades e comecei a viver uma vida social que, até então, eu não tive pois vivi um relacionamento que, somado o período de namoro (comecei aos 14 anos) com o casamento, foram 20 anos, então, a sensação de liberdade, me fazia parecer um pássaro que saiu da gaiola.


E foi através da faculdade e dessa “nova vida”, que eu comecei a sair todos os fins de semana, e a consumir álcool, inicialmente com minha bebida de preferência fermentada e apenas uma vez por fim de semana, só que como eu já tinha a compulsão alimentar desde antes da cirurgia e agora, com o estômago reduzido, eu não podia mais comer para saciar tanto a vontade física quanto emocional, então eu aumentei muito o consumo do álcool, para compensar esses vazios.


Em pouco tempo, eu já estava saindo todos os fins de semana, começando na sexta até o domingo e tomando bebida destilada, pois a fermentada já não me dava mais o mesmo efeito de euforia que eu sentia necessidade de ter. E foi a partir daí que minha vida tomou um rumo, que eu digo que foi meu fundo de poço.

Nessa trajetória de bebedeiras, dirigia alcoolizada, colocando em risco minha vida e a de outras pessoas, chegava em casa de manhã embriagada, deixando minha mãe preocupada, fora a situação de expor meus filhos a cenas deprimentes. Isso se tornou uma rotina, mas eu não achava que era alcoólatra. Pensava: “Ah, é só nos fins de semana....” Mero engano, hoje eu sei que o alcoolismo é uma doença progressiva e incurável, que é a doença do AINDA, pois o pior AINDA não tinha acontecido. Mas, quando menos esperei, o meu AINDA chegou!


Pois é, eu achava pouco beber no fim de semana, então comecei a beber durante a semana, pois a minha compulsão alimentar havia migrado para o álcool e meu organismo necessitava sempre de MAIS! E assim, tudo era motivo para beber. Se estava triste, se estava alegre, se estava estressada, se estava cansada, se estava ansiosa. Cheguei ao ápice de levar bebida escondida para o trabalho e, para piorar, ao fim da tarde ia dirigindo alcoolizada pegar minha filha na creche.


E foi num desses dias, que bati meu carro em uma mureta, perda total. Quanto a mim, fisicamente, não houve maiores consequências, mas foi a partir de então que a ficha caiu e precisei escutar da minha família o quanto eles estavam preocupados com meu consumo de álcool e que se continuasse a beber, um dia poderia ser fatal, ou até poderia envolver minha filha em um acidente.


Depois disso, eu prometi milhões de vezes à minha família que iria parar de beber, porque eu não achava que era alcoólatra e que sozinha podia parar. E com isso, comecei uma caminhada de mentiras, bebendo escondido, mascarando hálito de álcool, guardando garrafas de bebidas destiladas para misturar com suco, para tomar em casa e, nisso, foram anos, mas não tem como sustentar uma vida de mentiras por muito tempo: minha mãe descobriu meu esconderijo das bebidas e, para variar, caiu no choro e voltava a fazer promessas.


Mas, em um determinado dia, meu filho maior, já com 18 anos, olhou nos meus olhos e disse: “Você tentou esconder, mas faz um bom tempo que eu percebi que você voltou a beber e eu te pergunto: “Você esquece que tem uma família que te ama e que você pode contar? Então porque mente para nós? Você precisa de ajuda profissional, porque faz anos que você só promete, promete e não consegue parar de beber. Você quer morrer? Se você não parar de beber eu vou sair de casa, pois não quero presenciar sua morte provocada pelo álcool”.


E foi por causa dessa conversa franca com meu filho, que tocou profundamente a minha alma, que, finalmente, procurei um psiquiatra especialista em alcoolismo e outras drogas. Foi quando comecei tratamento com medicamentos e também iniciei psicoterapia. O tratamento “funcionou” até certo tempo, pois o psiquiatra era especialista, mas o psicólogo não, Eu consegui me manter em sobriedade por um ano, mas sempre achava que, por ter passado esse tempo todo em sobriedade, eu conseguiria voltar a beber “socialmente”, foi quando comecei a ter as recaídas.


E essas recaídas perduraram por anos, mesmo sendo acompanhada por psiquiatra e psicólogo. Vocês devem estar se perguntando: “Ora, mas ela estava com acompanhamento profissional, então porque estava tendo recaídas? ” Pois bem, é aí onde entra a moral dessa história toda.


Logo no início do meu relato, falei que tinha dúvidas sobre o arrependimento de ter feito a cirurgia. De fato, sempre houve uma real necessidade, diante das comorbidades pelas quais a obesidade tinha me levado (pressão alta, diabetes, inclusive gestacional), no entanto, e fica aqui o meu alerta, não recebi nenhum encaminhamento pós cirúrgico, para que houvesse continuidade no acompanhamento psicológico. Daí a importância de pesquisar bastante, não só sobre todo o processo pré e pós-cirúrgico da bariátrica, mas também acerca da importância da equipe multidisciplinar, das implicações e riscos do uso do álcool, tendo em vista que o índice é altíssimo, de casos de alcoolismo pós bariátrico, principalmente em mulheres.


Hoje, vejo o grande prejuízo que a falta dessa continuidade no acompanhamento psicológico após a cirurgia me gerou, eu já vinha de um quadro de compulsão alimentar desde a infância e, naturalmente, já havia o risco dessa compulsão migrar para outros tipos (de compras, sexo, jogos, dentre outras) e que, por si só, já implicariam em prejuízos também. Mas em relação ao alcoolismo, não recebi o alerta dos riscos que o álcool poderia me ocasionar e que, na minha opinião, é a mais séria, porque o álcool é uma substância lícita, que pode ser comprada livremente, em qualquer esquina, sendo o consumo incentivado por meio das mídias, das propagandas, em filmes e pela própria sociedade e familiares, e o seu uso pode levar ao alcoolismo, que é uma doença progressiva, incurável e fatal.


Então, o que posso dizer diante da minha experiência, é que apesar da necessidade real que me foi apresentada em 2009, para que eu fizesse a cirurgia, eu poderia ter pesquisado mais, buscado mais opiniões profissionais para ver outras possibilidades, principalmente, levando em consideração que minha obesidade foi ocasionada por questões emocionais, e o fato de não ter procurado, a tempo, ajuda por meio da terapia, desenvolvi compulsão alimentar. E pela falta de orientação adequada em meu pós-cirúrgico, desenvolvi o alcoolismo, que me levou ao fundo do poço.


Mas o final feliz dessa história toda é que reconheci e ACEITEI que era alcoólatra e, mais ainda, que precisava de ajuda multidisciplinar através de um grupo de A.A, além do auxílio do psiquiatra e do psicólogo. Foi quando meu Poder Superior me mostrou através das redes sociais, a Associação Alcoolismo Feminino – AF e, lindamente, fui acolhida por mulheres incríveis que me ofereceram o mais genuíno AMOR, sem julgamentos.

Ao entrar para a Associação, iniciei meu processo de recuperação e estou há 64 dias em sobriedade, SÓ POR HOJE! E só está sendo possível pois a AF me deu possibilidade de ser acompanhada por uma terapeuta especialista em dependência química, além de receber suporte diário, através dos grupos regionais de whatsapp, que são coordenados por voluntárias (guardiãs e abelhinhas), em que podemos trocar vivências, pedir ajuda quando bate a fissura (vontade de beber), fora todo suporte através de grupos terapêuticos, que são organizados através de uma programação semanal, divididos por temas como: codependência, maternagem, mulheres pretas, LGBTQIAP+, prevenção a recaídas, estudo dos 12 passos, estudo do livro “Vivendo sóbrio”, Saúde e bem-estar, e mulheres em situação de Violências.


Além disso, a AF oferece serviços como Yogaterapia e uma parceria com a Clínica Evolução, que dá acesso a consultas com profissionais psiquiatras, especialistas em dependência química, com valores bem acessíveis. Em suma, a Associação oferece uma verdadeira rede de apoio para as mulheres que decidam parar de beber.

Por fim, só tenho gratidão ao meu alcoolismo pois foi através dele que hoje estou tendo a possibilidade, pela primeira vez, ao longo dos meus 49 anos, de voltar o olhar para mim, de me priorizar, para resgatar a minha autoestima, resgatar o AMOR FAMILIAR, me amar, me auto perdoar e RECOMEÇAR uma nova vida LIVRE do álcool, plena, FELIZ e permeada de sentimentos genuínos de SERENIDADE, LUZ e PAZ!


SÓ POR HOJE, eu decido me dar a chance de fazer diferente e a DIFERENÇA em minha vida!







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