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Dia da Avó


Meus filhos me conheceram sóbria, depois viveram comigo os tristes anos que adoeci e há alguns anos acompanham o meu retorno à vida saudável. Eles viveram essa três fases na minha vida. Deles vieram meus netos: duas meninas, filhas da minha filha, e dois meninos, filhos do meu filho. Essas crianças, só por hoje, não me viram alcoolizada. Eu já havia parado de beber há alguns anos. Se o amor que sinto pelos filhos é grande e único, pelos meus netos é gigante e também único. Acredito que existem várias formas de amor.


Por todos esses anos sem beber, já vivi vários episódios que poderiam me influenciar ao ponto de voltar a beber. Momentos de muitas felicidades mas também de perdas significativas a mim. No passado, ouvi de um homem sábio, que admiro muito, que o maior problema que vivemos, a maior dificuldade que temos, é a que se apresenta hoje. Depois tudo passa e novas virão. Dessa forma, a cada situação nova procuro enfrentar com força e determinação para que nada abale esse tão importante momento da minha vida que é estar abstêmia do álcool.


No dia das mães deste ano, 14 de maio de 2023, minha neta Joana, na época com 8 meses, foi internada por estar com bronquiolite, que atualmente é a maior causa morte na infância. Essa doença se dá em um ou nos dois pulmões, dificultando a respiração. Sem ar, ele vai murchando até parar de funcionar. O problema foi evoluindo a ponto de precisar ser transferida para outro hospital, em outra cidade. Ficamos com muito medo do que poderia acontecer dali a diante. Por alguns dias nossa vida virou de ponta cabeça.

Eu pensava no sofrimento dela, da minha filha, da minha outra netinha de 7 anos (a sua irmã) e do meu genro.


Joana e sua mãe ficaram hospitalizadas 24 dias. Meu genro indo ao hospital diariamente, para auxiliar em várias questões e como apoio emocional a elas, ficando com a Joana para minha filha conseguir tomar banho e se alimentar. Algumas vezes, ela dormia pois havia passado noites e noites em claro, observando se a Joana não perdia os acessos venosos. Joana passou por muitos exames de sangue, várias radiografias do pulmão e por uma cirurgia, para que o pulmão direito voltasse a trabalhar normalmente. Todos sofriam muito e tudo estava nas mãos dos médicos, do Poder Superior e da força da Joana. Ela foi de uma resiliência absurda para a sua idade. Enfim, esses 24 dias pareceram meses.


A visita era proibida, principalmente a minha, já que eu estava resfriada, com muita tosse e indisposição. Não pude ajudá-los presencialmente. Não tinha notícias sempre que queria, pois minha filha obviamente estava constantemente ocupada com os cuidados com sua filha. Isso me angustiava. Senti a minha total impotência naqueles dias. E nada podia fazer, a não ser orar, ter fé e aguardar a rápida recuperação dela e o retorno ao lar deles. Confesso que se eu não tivesse um programa de vida tão poderoso, seria um grande gatilho para eu voltar a beber, para anestesiar tanta preocupação, tanta agonia.


Foram dias muito difíceis. Acredito que para mim foi “fichinha” perto deles. Na programação dos 12 Passos, feita por alcoólicos para alcoólicos, que se tornou um programa de vida e patrimônio da humanidade, existe o Terceiro Passo que me traz uma aceitação, uma entrega e uma serenidade real. Com ele, compreendo e aceito que nada acontece exatamente como eu quero e nem na hora que eu quero. O tempo é de um Poder Superior a mim e nada posso fazer além das providências tomadas corretamente. Após isso, é orar e confiar Nele. E Ele me tranquilizava a cada momento. A aceitação desse Passo e a Oração da Serenidade continuaram sendo uma grande ferramenta de auxílio para que eu enfrente toda e qualquer dificuldade, ainda mais essa. Procurei me acalmar, ter a responsabilidade de continuar sem beber e ajudar no que fosse possível. Eu sabia e sei que só depende de mim evitar o primeiro gole, aconteça o que for.


O que eu faria alcoolizada? Pegaria o carro, dirigiria até o hospital (moro entre 150 km a 200 km de onde elas estavam), correria risco de causar uma acidente, forçaria minha entrada no hospital, faria um escândalo pois não iam me deixar entrar, causaria vergonha e desrespeito a tudo e a todos. Eu me sentiria Deus, que só eu poderia salvar aquela criança e tirar o sofrimento da minha filha! Que horror! Sou uma simples humana, impotente a muitas questões e a única responsável pela minha vida, e olhe lá! Sou responsável pelo tratamento diário do transtorno pelo uso de álcool que adquiri, pelo excesso de bebida que ingeri no passado. Preciso ficar quietinha no meu canto, ajudando no que consigo e quando me pedem ajuda, para não interferir na vida de outros, principalmente na vida de quem amo.


Hoje posso dizer que amo muitas pessoas, pois estou aprendendo a me amar, a cuidar de mim e a respeitar meus limites. Quase um mês depois que as minhas meninas tiveram alta médica e aos poucos, principalmente a mãe e o pai estão se recuperando desse momento tão difícil. Sou muito grata ao Poder Superior, a todos que oraram por ela e a todos que me ouviram e viram meu choro de desespero. Tudo passa, não é? Isso também está passando e com muita graça. Importante é viver um dia de cada vez.




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