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Dia das Mães.



As lembranças com a minha mãe me traziam dor e sofrimento, mas hoje eu entendo que ela me deu o que pôde e mais do que ela teve. O pouco que sei da sua vida é que ela sofreu também com sua mãe e, talvez, até mais do que eu. Ela sofreu calada e eu, durante muito tempo, também. Mas não mais. Hoje eu conto a minha história. Porque eu sei que pode ajudar outras de nós.



A vida inteira eu senti a falta de uma mãe que estivesse presente para mim nos estudos, nas festas, nas dificuldades do crescer, nos cafés e almoços, quando eu chegava da escola ou quando eu queria sair só com ela, pra fazer qualquer coisa, qualquer coisa, desde que só com ela. Mas minha mãe era uma mulher tentando se reinventar, se livrar da opressão social e familiar que sofria. Ela foi estudar psicologia, se tornou artista plástica, pintava mulheres nuas e falava em liberdade sexual quando quase nenhuma mãe falava. E eu só queria que a minha mãe acordasse de manhã cedo, me levasse pra escola e me desse um beijo na testa de boa noite. Mas ela não era assim. Ela já bebia. Bebia muito. E fumava. Fumava muito.


Quando eu tinha 16 anos, minha mãe descobriu um câncer de mama. Lembro de ter ido ao hospital no dia da sua cirurgia e dela passando por mim, numa maca, com a boca branca da anestesia e, ao ver aquilo, eu ter surtado no hospital. Lembro do medo que tive de perder a minha mãe. Lembro dela em casa, no pós-operatório, e eu dormindo do lado da sua cama, de mãos dadas com ela, com muito medo. Lembro de uma dor quase insuportável. Meu primeiro quadro depressivo. Não me lembro de ter sido tratada mas lembro de ter começado terapia com a Margarida. E lembro dela me falar: “Você não é a sua mãe, o que aconteceu com ela não significa que vai acontecer com você.”


Dessa fase, só me lembro que ganhei um carro aos 17 anos. Não tenho outras recordações. Apaguei da minha memória todo o período de tratamento dela e fui pra “vida”. Comecei a beber. Lembro das inúmeras festas que fui, das noitadas inacabáveis que já fazia, de uma faculdade iniciada e abandonada. De outra faculdade que fiz em meio às farras universitárias. De relacionamentos amorosos tóxicos. De ter sofrido a primeira violência física de um namorado que bateu a porta do elevador no meu rosto. De eu tê-lo perdoado. Lembro dele me traindo com uma prima. De eu ter sentido uma dor quase insuportável de novo. De outro quadro depressivo e de eu comer muito e ter engordado absurdamente. Me tornei compulsiva por comida e por doces. Passei anos emagrecendo e engordando.


Engravidei aos 21 anos e achei que isso era tudo que eu precisava. Não bebi durante a gravidez. Prometi que não seria a mãe que tive. Minha filha Carolina havia nascido com icterícia patológica e ficou em tratamento por 3 longos meses, primeiro no hospital e depois em casa. Eu não conseguia cuidar dela, entrava em desespero e minha mãe, já sem fumar e beber, assumiu a minha filha neste período. Quando ela ficou boa, fui morar longe da minha família, o que não durou muito. Tive outro surto. Não sei como, não lembro da viagem, mas voltei pra casa dos meus pais, me separei e voltei pra “vida”. Terminei a faculdade que havia interrompido com a gravidez, comecei a trabalhar com meu pai e voltei a beber. Comecei a beber muito. Minha mãe reassumiu minha filha.


Reencontrei aquele namorado que me agrediu e me traiu. Casei com ele. Engravidei. Passei a gravidez sem beber. Foi um período feliz, mas durou pouco mais de 3 anos. Ele me traiu de novo e eu surtei mais uma vez. Cheguei a pesar 44 quilos, não conseguia comer e minha sogra me levou a um psiquiatra que me disse que eu estava com depressão. Foram dias de muito sofrimento até que o remédio fizesse efeito. Precisei tomar remédio para dormir porque passava noites acordadas ou só dormia algumas horas por noite. Tinha medo de morrer. Tinha medo de estar com alguma doença grave e morrer. Tinha medo de morrer, mas não aguentava mais viver com tanta dor.


Quando melhorei, voltei a frequentar o NAR ANON (para familiares de dependentes químicos, como o meu marido) de novo, agora por mim e não por ele. Me fortalecia a cada dia, mudava a cada dia. Ele me traiu mais uma vez mas, dessa vez, não surtei. Fortaleci minha recuperação da codependência nas reuniões do grupo. Mas voltei a beber. E a beber muito mais.

Me separei, abandonei o grupo e voltei a morar com meus pais novamente. Dos 30 aos 38 anos, a minha vida se resumiu a noitadas intermináveis com muito álcool, sexo sem proteção e apagões. Abandonei a maternagem. Minhas filhas sofreram. Sofri violência física novamente, dessa vez totalmente alcoolizada. Me culpei por isso. Bebi por isso. E minha mãe, que já havia entendido que éramos alcoolistas, me deu um ultimato: ou eu ia para o AA ou eu ia embora com as minhas filhas da sua casa. Fui para o AA, depois para a terapia, psiquiatra, clínico geral, ginecologista e para o CoDA. Comecei a me tratar profundamente.


Quase 15 anos depois, em recuperação desde então, entendo a minha história, entendo esse looping emocional que vivi durante anos. Entendo que repetia o padrão que havia memorizado a vida inteira, vendo a minha mãe, seu relacionamento com meu pai, a dinâmica adoecida da família onde nasci e cresci. Entendi que minha mãe não é culpada. Nem eu. Nós estávamos doentes por termos nascido em famílias disfuncionais de alcoolistas. Repetimos inconscientemente o que vivemos, durante anos, como vida “normal”. Não somos culpadas. No fim, minha mãe me salvou. No fim, fizemos as reparações e, enfim, pude ser a melhor filha pra ela no seu fim.


Hoje, eu sou responsável. Diariamente, troco a culpa pela responsabilidade de ser o melhor que posso para mim. E, assim, também venho sendo a melhor mãe que posso para minhas filhas.





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