Filme (Des)controle: O que acontece quando uma mulher não pode falhar
- Natana Magalhães
- 3 de fev.
- 2 min de leitura
Texto de Rachel Barbosa, psicóloga, sexóloga e Diretora de RH da AF.
Tive o privilégio de assistir ao filme (Des)controle duas vezes antes do lançamento nos cinemas. Em ambas as ocasiões, saí inquieta, refletindo sobre como a maioria das pessoas o perceberia: trata-se de uma mulher que recai no alcoolismo. E ponto.
Como psicóloga que atende mulheres alcoolistas, sei muito bem que esse transtorno é, muitas vezes, sintoma de algo mais profundo. E você pode pensar que, nesse aspecto, o alcoolismo não faz distinção de gênero — e não faz mesmo. Dependentes químicos, em geral, carregam dores enraizadas e experiências traumáticas na origem de sua condição, sejam mulheres, homens, pessoas trans, gays, bissexuais, não bináries…
Agora pense comigo: se esse filme fosse sobre um homem alcoolista, por exemplo, teria o mesmo roteiro?
A preocupação da protagonista com os filhos, com os pais, com a gestão da família, com a imagem profissional...
Seria igual? Não seria. O fato de ter uma mulher como protagonista é que faz a diferença.
As crenças que levam uma pessoa ao primeiro gole são, basicamente, três: alívio, merecimento e expectativa de recompensa. Em nossa sociedade, mulheres e homens se autorizam ao alívio, ao merecimento e à recompensa de formas diferentes: homens, muitas vezes, sentem-se naturalmente dignos disso; já para que mulheres se sintam merecedoras de uma vida boa apenas por existirem, é exigido um longo e exaustivo trabalho emocional, psíquico e até espiritual. A nós foi historicamente atribuído o cuidado em nome do amor e do sacrifício.
Engana-se quem acredita que o descontrole começa com a recaída de Kátia após anos de sobriedade. Na verdade, ela já estava sob a pressão do (des) controle muito antes.
Kátia estava tentando equilibrar os pratos dos inúmeros papéis que as mulheres são condicionadas a desempenhar sem falhar: mãe, esposa, profissional, filha e gestora da vida doméstica, financeira e emocional de todos ao redor.
As mulheres são empurradas, socialmente, a dar conta de todas essas searas, porque sabemos intuitivamente que, se não fizermos, não haverá quem faça. E não podemos falhar, pois, se falharmos, o trabalho se torna duplo: além de lidar com tudo sozinhas, ainda precisaremos lidar sozinhas com o erro. “Não dar conta” simplesmente não é uma opção.
O problema é que qualquer mulher que tente sustentar sozinha o cuidado de todos à sua volta — sem falhas, sem descanso e sem saber se priorizar para, então, cuidar do outro — inevitavelmente adoecerá. Kátia adoeceu de alcoolismo. Outras mulheres adoecem de depressão, ansiedade, burnout… Por isso, a você que lê esta análise, seja uma mulher alcoolista ou não: por favor, não tente mais sozinha. Busque apoio em sua rede: amigas, família, pessoas com quem você se sinta segura e saiba que querem o seu bem. Aprenda a pedir ajuda.
Aprenda a descansar. Aprenda que se priorizar não é egoísmo: é reconhecer: “eu também mereço, eu também preciso de uma vida boa”. E aprenda que essa responsabilidade é sua, e de mais ninguém. Ninguém mais vai te autorizar e saber qual é a sua vida boa, além de você mesma.
Por fim, homens dirão que o filme (Des)controle é sobre alcoolismo.
Mulheres saberão que é sobre a
vida delas.
