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Qual a relação entre alcoolismo e cirurgia bariátrica?

Atualizado: 1 de abr.



Por Natana Magalhães, mulher negra, historiadora e voluntária AF


Durante todo o mês passado voltamos as nossas atenções para uma temática importante e que se relaciona com uma das formas como o alcoolismo tem atingido às mulheres.

Um rico conteúdo informativo e com depoimentos pessoais está disponível no nosso Instagram. Isso porque o número de mulheres que tem recorrido à cirurgia bariátrica como forma de tratamento para a obesidade é crescente. A questão que nos mobiliza é que também cresce o número de pessoas que se tornam alcoolistas e/ou começam a fazer uso nocivo de álcool após a cirurgia.


Sobre esse assunto, também o estamos trazendo aqui no nosso espaço do blog, no intuito de contribuir com algumas reflexões diante de sua demanda crescente tanto na Associação Alcoolismo Feminino quanto na sociedade em geral. Na verdade, o alto percentual de girassóis¹ que se submeteram à cirurgia bariátrica reflete o contexto do nosso país, que ocupa o segundo lugar no mundo em realização de cirurgias bariátricas, sendo as mulheres 76% do total de pacientes.²


No Brasil, a cirurgia bariátrica é recomendada para casos de obesidade grave ou moderada associada à comorbidades. Mas afinal, o que é obesidade? De acordo com a Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde, obesidade é o excesso de gordura no corpo, em quantidade que provoque prejuízo à saúde. Algumas causas estão interrelacionadas à obesidade, tais como: a ingestão excessiva de alimentos, falta de atividade física, tendência genética e problemas hormonais.³


Para além de uma descrição médica ou científica, a obesidade também é vista como uma marca social e moral malquista (essa descrição me faz lembrar outra doença que conhecemos bem nesse blog). Doenças que possuem um peso social negativo como a obesidade e o alcoolismo precisam ser analisadas com seriedade e despidas da carga de preconceitos que carregam historicamente.


No campo da Saúde Coletiva, os estudos na perspectiva das ciências humanas e sociais que tem por objeto de estudo a obesidade têm reconhecido que há uma supervalorização do corpo magro, visto como o corpo ideal, em contraposição com o corpo gordo que tem recaído ao estigma de inadequado e indesejável. (MATTOS, et. al., 2009)


Nesse sentido, fatores genéticos, biológicos e socioculturais podem ser ignorados pelo senso comum que insiste em condenar e punir pessoas gordas. Condenação essa motivada e, muitas vezes, sustentada pela indústria do emagrecimento. As mulheres, por sua vez, têm sido o público-alvo na arena de disputa pela liderança lucrativa do oferecimento de toda sorte de produtos, tratamentos e procedimentos que mais se relacionam com uma cultura estética padronizada, veiculada por narrativas de consumo, do que com saúde.


No Brasil, foram realizados 74.738 procedimentos cirúrgicos no ano de 2022 de acordo com dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM). Desse total, apenas 5.923 aconteceram por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Houve uma queda de 54,8% se comparado com o ano de 2019 quando o SUS atendeu a 12.568 pacientes. Ou seja, a iniciativa privada através dos planos de saúde, tem tido protagonismo numa das principais vias de tratamento da doença.


Dentro desse panorama, também não podemos desconsiderar que as pesquisas têm indicado que há maior risco de alcoolismo após a cirurgia bariátrica. A absorção de álcool em pessoas que se submetem à cirurgia é maior. Um estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP) aponta que embora todos os que se submeteram à pesquisa tivessem algum consumo de bebida alcoólica antes da bariátrica, apenas 15% bebiam ao menos três vezes por semana. Após a cirurgia, 31% passaram a apresentar um quadro considerado de risco.


Com a redução do estômago, a ação da enzima que metaboliza o álcool é muito menor, somado à ingestão reduzida de alimentos, os picos de álcool no sangue são mais elevados, o tempo para voltar a ficar sóbria é muito maior do que o de uma pessoa não operada e os sintomas de embriaguez são mais elevados com doses menores de bebidas.4 Ou seja, é possível ficar bêbada mais rapidamente e por mais tempo com uma quantidade menor de bebida, o que não quer dizer que a pessoa vá beber menos diante dessa realidade concreta.


É sempre oportuno conhecer o caráter multifatorial das coisas. Por exemplo, pensar a interação entre alcoolismo e cirurgia bariátrica também diz respeito a entendermos sobre às pressões estéticas a que mulheres são submetidas, sobre a ineficácia de políticas públicas de prevenção à obesidade, também sobre o avanço desenfreado da indústria de alimentos multiprocessados e como o seu consumo tem mudado nossa relação com a comida desde à infância, visto que estudantes de escolas públicas estão reféns desse tipo de alimentação.


Se você é uma mulher alcoolista que fez cirurgia bariátrica e chegou até esse texto, provavelmente você já passou por alguma situação relacionada à obesidade que tem a ver, inclusive, com fatores psicossociais resultantes de bullying, gordofobia e inacessibilidade em transporte público, assentos inapropriados, falta de representatividade em comerciais, nas mídias em geral, críticas na família, insultos, etc. Todas essas situações não podem ser ignoradas e podem ter relação com o uso nocivo de álcool.


Sobre representatividade, gostaria de compartilhar alguns perfis de mulheres que me inspiram. São premiadas atletas, dançarinas, empresárias, instrutoras de Yoga e ativistas e espero que nos ajude a desmistificar a ideia de que apenas pessoas magras são saudáveis, ativas e competentes. São elas: Jessamyn @mynameisjessamyn, Jhenifer Raul @casulopreto, Ellen Valias @atleta_de_peso, Alexandra Gurgel @alexandrismos, Angela Cheirosa @angelacheirosa, Costanza @lagordavegana.


Muita coisa tem mudado e estamos falando mais abertamente sobre aquilo que nos traz sofrimento, estamos nos munindo de conhecimento e ferramentas para gerenciar a vida com autonomia, como estamos fazendo aqui nesse texto, nas nossas reuniões e no nosso ajuntamento diário em espaços de cuidado coletivo. Vamos Juntas!


1 Mulheres acolhidas na Associação Alcoolismo Feminino



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