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“Se o Brasil me obriga a beber, quem me apoia quando eu preciso parar?”

Atualizado: 4 de jan.

Reflexões sobre alcoolismo, mulheres negras e interseccionalidade.



Seja numa mesa de bar aguardando o trânsito amenizar no retorno para casa, ao final de um expediente cansativo de trabalho, diante de uma situação desagradável a qual não podemos nos desviar ou em meio a um cotidiano estressante, precarizado e laborioso, é comum ouvirmos ou mesmo dizermos a frase: o Brasil me obriga a beber!


Essa frase mobiliza em mim, mulher negra, algumas reflexões acerca do consumo abusivo de álcool, seus estudos e como o mesmo tem afetado a qualidade de vida das mulheres negras, diante dos impactos negativos na saúde, incluindo doenças hepáticas, problemas cardíacos, câncer e transtornos mentais, além do aumento a riscos de violência sexual e doméstica.

De acordo com pesquisas recentes, o consumo pesado episódico de álcool (que corresponde a 5 ou mais doses em uma mesma ocasião) é mais frequente entre as mulheres negras (28,9%) do que entre as mulheres brancas (20,2%). (Revista Brasileira de Epidemiologia em 2020).

A população negra apresenta indicadores sociais piores em relação aos da população branca. Em outras palavras, nossa qualidade de vida e bem-estar são inferiores. Temos menos acesso e mais precário à saúde, educação, trabalho, renda, segurança dentre outros. As mulheres negras são vítimas sistemáticas do racismo e do sexismo na sociedade, o que dificulta o acesso aos serviços de saúde do SUS.


Ora, lidamos com muitas desvantagens estruturais, o que merece nossa atenção enquanto sociedade. Uma pesquisa realizada pela Oxfam Brasil, publicada em 2021, apontou que as mulheres negras enfrentam maior vulnerabilidade socioeconômica em comparação com as mulheres brancas e que cerca de 52% das mulheres negras são as responsáveis pela renda do lar no país.


Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que o Brasil é um dos cinco países das Américas com a maior proporção de mulheres que bebem regularmente, e o consumo entre as mulheres negras pode ter efeitos especialmente graves devido a fatores como o histórico de opressão e a falta de redes de apoio.

As informações até aqui expostas são pequenos apontamentos da ampla situação do nosso país. Minha intenção é dialogar sobre como considerar as dimensões de raça, classe, gênero, sexualidade tem sido fundamental para o avanço de políticas públicas que sejam mais inclusivas e atendam demandas específicas e urgentes que atingem determinados grupos sociais e promovam equidade.

Por exemplo, há algumas décadas, diante de uma alta taxa de mortalidade de recém-nascidos no RJ, uma pesquisa foi coordenada pela FIOCRUZ como resultado de uma CPI da Assembleia Legislativa. Descobriu-se que morriam mais bebês filhos de mulheres negras, pois essas mulheres recebiam tratamento discriminatório em todas as etapas de sua gestação. Isso se transformava em risco de vida para a mãe e para a criança.


Nesse sentido, a abordagem interseccional oferece uma lente crítica para compreender as diferentes formas de opressão que atingem nossas vidas. A interseccionalidade é uma ferramenta analítica desenvolvida por feministas negras que explica que o racismo, o capitalismo e o cisheteropatriarcado são sistemas de poder estruturalmente inseparáveis que atuam colocando as mulheres negras numa posição mais exposta e vulnerável socialmente, ao reconhecer a complexidade dessas interações e como elas se cruzam para afetar a experiência de vida. Assim, sob esse ponto de vista, as análises dos impactos do alcoolismo para as mulheres negras tornam-se mais significativas, pois são capazes de fornecer informações mais precisas para o enfrentamento às desigualdades.

Em que pese, organizações da sociedade civil mobilizadas por mulheres estejam voltando suas estratégias e práticas de enfrentamento ao problema real e crescente do alcoolismo, como no caso da Associação Alcoolismo Feminino, há um longo caminho para que políticas de prevenção e recuperação possam ser garantidas pelo Estado num país que nos “obriga a beber”.

Vamos rompendo os silêncios que nunca foram capazes de nos proteger, como bem nos ensinou a escritora e poeta Audre Lorde e voltando nossas atenções para as demandas das mulheres negras, pois aprendemos com Angela Davis que "Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”.


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